A exterioridade do discurso em Foucault: da vontade de potência ao dispositivo

Carolina Noto

Resumo


Em sua aula inaugural no Collège de France, L’ordre du discours, Foucault afirma que uma das regras de seu método investigativo é a“regra da exterioridade”: tratar-se-ia de investigar os discursos a partir de suas “condições exteriores de possibilidade”. A ideia de “exterioridade”, contudo, é muito vaga e é preciso se perguntar o que exatamente Foucault entende por “exterior” ao discurso. Procurarei abordar essa questão a partir do curso que dá continuidade à aula inaugural, Leçons sur la volonté de savoir, onde, retomando as noções nietzschianas de “conhecimento” e de “vontade de poder” e as utilizando ao seu modo, Foucault deixa claro que a questão das “condições exteriores de possibilidade” deve ser pensada à luz de Nietzsche. Mas essa influência deverá ser pensada com cautela já que ela implica tanto continuidades quanto rupturas. Em Nietzsche, a exterioridade do conhecimento (aquilo que, do exterior do campo epistemológico, determina o valor do que reconhecemos como conhecimento verdadeiro) diz respeito às relações de poder que pertencem ao domínio da vida, do corpo e da luta entre impulsos, isto é, ao domínio daquilo que Nietzsche chama de “vontade de potência”. Em Foucault, contudo, a “regra da exterioridade” sofre uma torsão e o que é designado como “exterior” ao conhecimento ou ao saber não é exatamente o campo nietzschiano da “vontade de potência”. A exterioridade do conhecimento, em Foucault, passa a designar um vasto e complexo campo de relações de poder que atuam por meio de uma série de práticas e que compõe o que Foucault chama de“dispositivo”. A questão toda, então, é compreender a diferença existente entre o domínio nietzschiano da “vontade de potência” e o domínio foucaultiano do “dispositivo”.


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