A autoencenação de Nietzsche como sofredor trágico

Hailton Felipe Guiomarino

Resumo


No fragmento póstumo 14[89], da primavera de 1888, Nietzsche esboça apontamentos acerca do que chamou de “problema do sentido do sofrimento”. Trata-se do antagonismo entre um sentido cristão e um sentido trágico. No primeiro caso, tem-se um modelo ascético-ideal de sentido, cumprindo a função de justificar o sofrimento para um tipo de sofredor, cuja debilidade fisiológica necessita da ficção de um além-mundo para fins de consolo e narcotização. Já o sentido trágico corresponde ao anseio de outro tipo de sofredor, cuja superabundância de forças requer a afirmação jubilosa da existência e justifica o sofrimento no próprio curso do vir-a-ser. Partindo dessa distinção, o artigo objetiva caracterizar a figura de Nietzsche, tal qual ela aparece em Ecce Homo, enquanto um sofredor trágico. Mediante o recurso à autoencenação, pelo qual Nietzsche converte a si mesmo em instância argumentativa, seu próprio sofrimento vivido é tornado um vetor crítico para operar uma ressubjetivação em relação a certas valorações modernas. Ver-se-á como o filósofo insere a “sequência e interdependência internas” de sua vida na história da cultura ocidental, marcada pelas valorações metafísico-cristãs, de modo a fazer do seu sofrimento o testemunho da fratura da modernidade em direção à intentada transvaloração dos valores.


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