A paixão da diferença: uma resposta a Safatle

Alisson Ramos de Souza

Resumo


O artigo se propõe a apresentar uma resposta às críticas dirigidas à filosofia de Gilles Deleuze por Vladimir Safatle, que, em seu artigo “A diferença e a contradição”, publicado pela Revista Discurso (2016), apresenta e confronta a leitura que o filósofo francês faz do pensamento de G.W.F. Hegel. À primeira vista, Safatle não vê incompatibilidade ontológica entre os projetos filosóficos de Deleuze e Hegel, apontando para um mero mal-entendido, ou melhor, para um falso problema, porquanto o verdadeiro problema estaria na determinação das modalidades de inscrição ontológica da diferença. Ele argumenta que a crítica de Deleuze só é possível porque ele teria reduzido todas as figuras dialéticas da negação à oposição – objeção também partilhada por Catherine Malabou. Safatle ainda sugere que o processo de atualização não se dá apenas por meio de procedimentos positivos, ao invés disso, negativos. Esses dois pontos são os mais problemáticos nessa tentativa de salvar Hegel de uma leitura do tipo deleuziana, o que será discutido de maneira mais exaustiva no decorrer deste texto.O artigo se propõe a apresentar uma resposta às críticas dirigidas à filosofia de Gilles Deleuze por Vladimir Safatle, que, em seu artigo “A diferença e a contradição”, publicado pela Revista Discurso (2016), apresenta e confronta a leitura que o filósofo francês faz do pensamento de G.W.F. Hegel. À primeira vista, Safatle não vê incompatibilidade ontológica entre os projetos filosóficos de Deleuze e Hegel, apontando para um mero mal-entendido, ou melhor, para um falso problema, porquanto o verdadeiro problema estaria na determinação das modalidades de inscrição ontológica da diferença. Ele argumenta que a crítica de Deleuze só é possível porque ele teria reduzido todas as figuras dialéticas da negação à oposição – objeção também partilhada por Catherine Malabou. Safatle ainda sugere que o processo de atualização não se dá apenas por meio de procedimentos positivos, ao invés disso, negativos. Esses dois pontos são os mais problemáticos nessa tentativa de salvar Hegel de uma leitura do tipo deleuziana, o que será discutido de maneira mais exaustiva no decorrer deste texto.

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