Fernando Pessoa: Aproximação dialéctica e fenomenológica

Diogo Ferrer

Resumo


  É possível mostrar que a obra de Pessoa irradia, no que toca ao seu alcance filosófico, ontológico ou metafísico, em redor de um centro absolutamente diferencial ocupado por um conceito filosófico clássico, que podemos fazer remontar aos alvores da metafísica ocidental. Platão projecta muito para trás esta concepção, até Parménides de Eléia. No diálogo com o nome deste filósofo, lê-se que “para que possa ser completamente, o ente possui o não-ente do não-ser que não é”, ou numa tradução mais simples “o ser participa da não-existência do não-ser, para que possa atingir a sua perfeita existência”.[1] Independentemente da tradução, a ideia-chave é que mesmo o ser perfeito da metafísica parmenídea necessita do não-ser do não-ser “para que possa ser completamente”. Poderá dizer-se que a anulação da mediação é necessária como condição da posição da identidade. Esta concepção clássica do ser, restabelecido na sua completude pela negatividade reiterada é, sem dúvida, um dos eixos categoriais e um problema conceptual da poesia de Pessoa. A dupla negação, ou negatividade absoluta, e a sua inevitável reflexão são a condição da afirmação do ente, que só é “completamente” ou “perfeitamente” na sua relação negativa com o não-ser.[2]


[1] Platão, Parménides 162a, segundo as traduções (alteradas) de Maria José Figueiredo e H. N. Fowler, respectivamente (Platão, Paménides, trad. M. J. Figueiredo, Piaget, Lisboa, 2001; e Plato, IV. Cratylus. Parmenides. Greater Hippias. Lesser Hippias, trad. H. N. Fowler, Loeb, Harvard U. P. 1977).

[2] Procurámos mostrar isto, com uma abordagem diferente, no nosso artigo Ferrer, “Fernando Pessoa e a Consciência Infeliz”, in Revista Filosófica de Coimbra, 33 (2008), pp. 203-222.


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